João Rito: "nós acreditamos que vamos conseguir implementar este projeto em Portugal"

João Rito e Nuno Leite são co-fundadores da SEAentia, uma das startups vencedoras da edição de 2018 do Blue Bio Value, com um projecto inovador de aquacultura, e estiveram à conversa connosco. Falaram da sua necessidade de passar da teoria à prática, da escolha da corvina como alimento de cultivo e do que esperam alcançar com este projeto.

SEAentia.jpeg

Produzir um alimento saudável, de alta-qualidade, de forma sustentável”. Era este o objetivo principal de João Rito, Nuno Leite, John Jones e Sónia Rito, quando criaram a SEAentia.

Como tudo começou:

João diz que foi no início do Doutoramento e depois de começar a viajar que percebeu que a investigação feita na área da aquacultura no nosso país é boa, mas pouco aplicada e que queria fazer mais: “comecei a perceber que a realidade não tinha nada a ver com aquilo que nós vemos em Portugal (…) e aquilo que se estuda tem de ser aplicado”.

Foi aí que decidiu convencer o seu ex-colega, Nuno Leite, o seu orientador de Doutoramento, John Jones, e a sua irmã, Sónia Rito, a juntarem-se a ele para desenvolverem o projeto. “Eu queria aplicar o meu conhecimento e comecei a tentar convencer as pessoas à minha volta, porque sozinho tinha a perfeita noção de que seria impossível”, diz o sócio fundador da SEAentia.

João acrescenta que este projeto lhes permitiu criar o seu próprio emprego numa área com poucas saídas profissionais e, ao mesmo tempo, fomentar o empreendedorismo: “conseguindo fazer isto, não só criamos o nosso próprio emprego, mas também criamos emprego para muitas outras pessoas”.

Passar da teoria à prática:

Nuno é da mesma opinião e acrescenta: “estávamos saturados da mesma rotina de saltar de bolsa em bolsa só para gerar conhecimento e nunca o aplicar à realidade da aquacultura”.

Mas, antes de criarem a empresa, em 2017, procuraram desenvolver a ideia, falando com pessoas que conheciam, “não só em Portugal, mas sobretudo lá fora, no estrangeiro, onde têm um conhecimento em aquacultura aplicado”, diz Nuno.

João admite que a ideia inicial não era aquilo que é agora: “chegámos a ter outros organismos pensados para produção, em vez do peixe”.

 

Porquê peixe?

Peixe é um dos alimentos mais saudáveis que existe no mundo inteiro, quer em proteína, quer em gordura, e queremos produzi-lo da forma mais sustentável possível e sem danificar o ambiente ao nosso redor”, explica João.

Este peixe é produzido em água salgada, “porque o mar é, provavelmente, o bem que existe em maior quantidade e está mais disponível para o mundo inteiro”, diz João. Para além disso, “os organismos de água salgada são também organismos de melhor qualidade, do que aqueles que são produzidos em água doce”, acrescenta.

 

Porquê corvina?

Quando se pensa em peixe, pensa-se em robalo, dourada ou salmão, o que significa que “iríamos estar a entrar num mercado altamente competitivo, onde outras pessoas já estão há mais tempo e com muito mais vantagens”, diz João. Para além disso, “as corvinas têm maior taxa de sobrevivência do que outros peixes e crescem muito mais rápido”, continua. Por exemplo, “uma dourada leva dois anos para crescer 500 gramas e uma corvina, dois anos para crescer dois quilos”.

Acresce o facto dos seus parceiros do IPMA - Instituto Português do Mar e da Atmosfera terem uma “grande experiência em cultivo” de corvina, explica João.

A SEAentia reconhece, ainda, a importância de se diversificar a alimentação e a oferta, já que isso vai também “reduzir riscos de mercado, porque, por exemplo, se tivermos só um peixe a ser cultivado e houver um problema no mercado, ficamos sem alternativas”, diz João.

 

Dúvidas e incertezas de quem lança um negócio:

Para João, as dúvidas estão sempre presentes: “pode sempre correr bem ou pode sempre correr mal”. “Quase dois anos depois de termos formado a empresa, ainda estamos nessa fase”, diz. Apesar de tudo, João acredita no projeto, “independentemente dos obstáculos que possam surgir”, acrescentando que já sabiam que iriam surgir dificuldades e que iriam “ter de resistir ou, então, não valeria a pena continuar”.

 

Expectativas e ambições:

Daqui a três anos esperamos estar a terminar a nossa prova de conceito, já com grandes planos e já avançando com a fase de upscale, da fase comercial”, diz Nuno. “Daí para a frente, é produzir ao máximo aquilo que nós temos planeado e, eventualmente, assim que a fase comercial estiver a andar, porque não pensar em expandir para outros pontos do mundo?”.

João mostra-se mais cauteloso: “nós acreditamos que vamos conseguir implementar este projeto em Portugal”. “Até as coisas acontecerem, nunca temos as certezas absolutas, mas ainda acreditamos nisso”, acrescenta.

Neste momento, o que estão a tentar fazer é levantar financiamento, para realizarem a prova de conceito, que lhes permitirá testar toda a tecnologia utilizada: “queremos cometer erros agora”, diz João.

 

Sobre o Blue Bio Value:

Para Nuno o programa Blue Bio Value foi “uma espécie de wake up call”, porque até então pensavam “como cientistas” e não como “empreendedores e empresários”. Nuno acrescenta que o programa lhes abriu “muitas portas”, para falarem “com pessoas das mais diversas áreas”.

Quando começou o Blue Bio Value, o João confessa que achava que “estava muito bem preparado” e que se calhar não iria conseguir “melhorar assim tanto”. Mas, afinal estava enganado e acrescenta que o programa lhes trouxe “uma visibilidade enorme”.

Qualquer pessoa que queira fazer este programa, que nem pense duas vezes”, diz João. “Não sei quantos meses após o programa, eu tenho a certeza que ainda vai acontecer muito mais coisas, só pelo facto de termos estado lá”, conclui.